Prefeito e deputado trocam acusações e deflagram guerra após ação do Gaeco

Em vídeo explosivo, prefeito acusa deputado federal de interesse em área da cidade para transformar em loteamentos. Parlamentar fala em alegações mentirosas e promete entrar com processo

Não é exagero nenhum dizer que o prefeito afastado de Fazenda Rio Grande, Marco Marcondes (PSD), tem como padrinho político o deputado federal Toninho Wandscheer e do filhe dele, o estadual Alisson. 

Foi com a ajuda da família Wandscheer que Marcondes foi eleito em 2020 e reeleito em 24 com um excelente índice de aprovação que fazia o prefeito pensar em alçar voos políticos mais altos no pleito deste ano.

Tudo desmoronou em outubro de de 2025, quando o Ministério Público do Paraná deflagrou a operação Fake Care, que investiga um esquema milionário de corrupção, peculato e lavagem de dinheiro na Secretaria de Saúde de Fazenda Rio Grande. A suspeita é que o esquema tenha desviado mais de R$ 10 milhões.

Se não bastassem os desdobramentos na Justiça, o caso agora ganha contornos políticos e preocupantes. Quem conhece de perto a política em Fazenda Rio Grande diz que a guerra entre Marcondes e os Wandscheer tem potencial para desvelar segredos até então guardados a sete chaves.

Marcondes, que passou algumas semanas preso, foi solto após uma decisão judicial, mas deste outubro não conseguiu retomar o cargo na prefeitura. Mesmo assim, conseguiu preservar o mandato na Câmara de Vereadores de Fazenda Rio Grande após alguns pedidos de cassação feitos por adversários políticos.

A força política do prefeito, no entanto, parece estar no fim. Ontem (18), após mais uma tentativa de cassação do madato na Câmara Municipal, Marcondes resolveu sair da defensiva e partir para o ataque. Numa rede social anunciou que iria romper o silêncio. E assim fez. Um vídeo explosivo publicado na noite de ontem, escancarou uma relação de extremo conflito com os Wandscheer.

“Hoje vou esclarecer tudo”

Ele começou dizendo que ficou em silêncio, desde outubro, para preservar a familía e evitar novos conflitos, mesmo diante de “ameaças, intimidações, injúrias e desonra causada por uma perseguição política”. E deu nome aos bois.

“Hoje vou esclarecer tudo. Chega de ficar calado, pois para eles não existe um fim. As intimidações, ameaças continuam fora dos olhares de vocês. Na verdade, nunca parou. E esse é o modo operante dele, deputado Toninho Wancher. A busca incessante, doente e psicopata dele por dinheiro e poder do a quem doer colocou eu e Fazenda Rio Grande nessa situação. Ele queria transformar os últimos resquícios de floresta e a área rural do Passo Amarelo em seus loteamentos. Em troca me ofereceu parte de tudo isso e eu posso provar”.

Marco Marcondes exibe no vídeo uma gravação que, segundo ele, seria de Alisson Wandscheer, “filho e cúmplice de Toninho”.

“A única coisa que o pai tinha pedido pra ele, por ter ajudado ele na campanha, foi aumentar o perímetro urbano naquela parte lá, que daí ele conseguiria fazer os loteamentos e recuperava o dinheiro dele. E ele não fez”.

“Alegações mentirosas”

A reação de Toninho Wandscheer veio nesta sexta-feira (19) através de uma nota divulgada para a imprensa em que o deputado “repudia de forma veemente as falsas e levianas acusações feitas pelo ex-prefeito afastado de Fazenda Rio Grande”.

“Marco Marcondes terá de provar na Justiça pelas alegações mentirosas e sem qualquer base na realidade de que o deputado teria influenciado decisões do Gaeco, do Ministério Público ou do Poder Judiciário, bem como a suposta ameaça que afirma ter sofrido. Diante da gravidade das ofensas e da absoluta ausência de qualquer prova, informamos que medidas judiciais cabíveis por calúnia e difamação já estão sendo adotadas. O réu responderá civil e criminalmente perante o Poder Judiciário”.

Por fim,o parlamentar pontua que “reafirma seu compromisso histórico de mais de 30 anos de vida pública pautada pela ética, transparência e pelo trabalho sério em prol do Paraná e de Fazenda Rio Grande. Ele não aceitará que mentiras sejam utilizadas para tentar desviar a atenção dos fatos que estão sendo apurados pela Justiça”.

Explicações

Se em depoimento ao MP, Marcondes preferiu invocar o direito constitucional de só falar em juízo, no vídeo ele explica pontos da acusação feita pelo MP.

Sobre a suspeita de um esquema que teria desviado R$ 10 milhões da Secretaria de Saúde de Fazenda Rio Grande, Marcondes cita que este valor se refere ao montante total do contrato que a prefeitura teve com a empresa AGP — “empresa que prestou serviços de exames rápidos durante quase dois anos em milhares de cidadãos fazendenses, dando a oportunidade de diagnóstico rápido para milhares de pessoas”.

“Posso afirmar que o serviço foi realizado comprovadamente, não existe desvio ou roubo da minha parte. As pessoas foram atendidas e os próprios pacientes assinaram seus formulários de atendimento contendo seus dados pessoais”. Marcondes diz que é o maior interessado em colaborar com a Justiça e que as imagens das câmeras de segurança do condomínio onde mora “não mostram em nenhum momento eu pegando qualquer dinheiro, pelo contrário”.

Sobre a questão patrimonial, o prefeito afastado explica que a evolução é oriunda de financiamento bancário, compatível com a capacidade financeira. “E a maior crescente da minha evolução foi antes da empresa ter contrato com a Prefeitura.”

Recado intimidador

Ao final do vídeo questiona: “Diante de tudo isso, por que eu ainda estou afastado? Durante todo esse tempo não foi julgado o meu retorno à Prefeitura, mas sigo confiante na seriedade da Justiça e que logo teremos novidades”. Talvez esta seja a maior apreensão de Marco Marcondes, perder o mandato de prefeito de Fazenda Rio Grande. Talvez isso explique a decisão de implodir a relação com a família Wandscheer.

A manifestação de Marco Marcondes é uma declaração de guerra política com o deputado federal Toninho Wandscheer, mas, principalmente, um recado em tom intimidatório. “De onde veio esse material, tem muito mais. É só o começo”.

Bombeiros já entraram em ação para tentar desarmar este conflito bélico travando entre o prefeito e o deputado federal de Fazenda Rio Grande que pode acabar sendo maléfica para todos os envolvidos.

Enquanto isso, a Justiça anda a passos lentos para definir de quem é a competência para investigar, processar e julgar a operação Fake Care: se das autoridades estaduais ou federais. O MP do Paraná chegou a denunciar seis pessoas, entre elas Marco Marcondes, mas ela sequer foi apreciada.

Antes da denúncia do MP ser levada para recebimento pelos integrantes da 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Paraná, o caso foi remetido para avaliação da Justiça Federal para que se manifeste sobre o interesse da União e estabelecer a competência.

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