As recentes operações que investigam a infiltração da facção criminosa PCC no sistema de transporte público da cidade de São Paulo acendem uma luz amarela nas demais metrópoles do país. Está cada vez mais evidente a atuação destas organizações criminosas junto ao poder público.
As ações policiais das autoridades paulistas identificaram que pelo menos 12 das 22 empresas de ônibus que operam o transporte coletivo na cidade estariam sob o controle direto ou indireto do PCC. A facção utilizava “laranjas” para ocultar os verdadeiros donos dos negócios, que davam ordens para movimentações ilícitas, fraudes em licitações e lavagem de dinheiro.
O PCC e outras facções passaram a usar o dinheiro do tráfico de drogas e outros crimes para investir em negócios lícitos — e empresas de ônibus tem sido uma vertente criminosa.
Curitiba, que é uma referência no país quando o assunto é transporte público, está em vias de realizar a nova licitação do transporte público — com previsão de leilão na Bolsa de Valores de São Paulo no final do mês de novembro.
As investigações apontam que contratos de longa duração, como está previso no edital na capital paranaense, servem como um chamariz aos criminosos. Sem falar nos valores envolvidos: R$ 18,7 bilhões ao longo dos 15 anos de contrato na capital paranaense.
Os gestores públicos agora têm uma nova preocupação: criar mecanismos para identificar, antes do processo licitatório, eventuais vínculos de empresas que participam do certame com o crime organizado. E assim, impedir a participação destas. Ou pelo menos, que se criem ferramentas de fiscalização ao longo do contrato.
Mecanismos de controle
O Blog Politicamente questionou a prefeitura de Curitiba sob quais precauções estão sendo tomadas neste sentido. A prefeitura informou que a nova concessão “amplia os mecanismos de controle, transparência e integridade em relação aos contratos atuais”. E que as medidas previstas começam já na fase de licitação, com barreiras de entrada e requisitos de habilitação.
A operação, cita a prefeitura, será feita por uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), com patrimônio, contabilidade, administração e governança próprios. “Será obrigatória a identificação da cadeia societária até os beneficiários finais, além de acionistas, administradores, acordos de acionistas e partes relacionadas”. Além de um “Programa de Compliance” e acompanhamento durante a execução do contrato.
Na prática, a ideia é “acompanhar quem controla e quem se beneficia economicamente da concessionária durante toda a execução do contrato” — e buscar reduzir vulnerabilidades e ampliar a capacidade de fiscalização.
“A transferência do controle depende de anuência prévia do Poder Concedente e somente poderá ocorrer após dois anos da assinatura do contrato, mediante comprovação da capacidade técnica, econômico-financeira e jurídica da nova controladora. Além disso, alterações societárias iguais ou superiores a 10% do capital social deverão ser comunicadas ao Poder Concedente, mesmo quando não houver mudança de controle”.
Por fim, a prefeitura cita ainda que “haverá prestação periódica de informações contábeis e financeiras, demonstrações financeiras anuais acompanhadas de auditoria independente e obrigação de manter a documentação da concessão disponível à fiscalização do Poder Concedente”.
E sublinha o que considera um diferencial: “a gestão e o controle da bilhetagem permanecem com o Poder Concedente, e a arrecadação tarifária será direcionada ao Fundo de Urbanização de Curitiba (FUC). A concessionária, portanto, não terá ingerência sobre essa fonte de receita”.
Histórico recente no Paraná
Não é uma preocupação isolada e nem só do Paraná. Por aqui, há registros de empresas ligadas ao PCC que venceram licitações abertas pelo Governo do Estado. Em agosto de 2025, o Blog Politicamente revelou que a secretaria da Administração e Previdência do Paraná preparava os últimos ajustes para assinar um contrato de pouco mais de R$ 100 milhões com a fintech BK Instituição de Pagamento S.A., também conhecida como BK Bank.
A empresa venceu a licitação no Paraná para atender ao programa “Cartão Comida Boa”, da Secretaria de Desenvolvimento Social e Família (Sedef), nos 399 municípios do Estado. A BK Bank, que foi alvo da Operação Carbono Oculto, é apontada pela PF como um banco paralelo do PCC, uma peça central na engrenagem de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
A BK Bank é apontada pela PF como um dos principais “dutos financeiros” no esquema PCC para lavar dinheiro da sonegação de impostos no setor de combustíveis e faria parte de um grupo de fintechs que teria movimentado, segundo a Receita Federal, R$ 11,6 bilhões entre 2021 e 2025.
A empresa não só participou da licitação no Paraná como estava prestes a assinar o contrato de quase R$ 100 milhões. Em janeiro deste ano o Governo do Paraná suspendeu a assinatura de contrato. Mas, haviam outros e para executar o mesmo serviço: Programa Cartão Comida Boa.
O contrato número 1.829 de 2023 mostra que a fintech recebeu R$ 95,8 milhões do governo paranaense no período de junho de 2023 ao mesmo mês de 2024. E este contrato ainda foi prorrogado por mais três meses, representando um pagamento de mais quase R$ 24 milhões.
Como a BK Bank e outras empresas ligadas ao PCC conseguem participar e vencer licitações milionárias junto ao Poder Público? Primeiro pela falta de mecanismos capazes de identificar empresas laranjas, de certa forma ligada ao crime organizado, e depois pelos descontos generosos apresentados para ganhar a concorrência. Já que tais empresas eram usadas para lavar dinheiro para criminosos.
Portanto, diante de um contrato de 15 anos que a Prefeitura de Curitiba está prestes a fechar com uma empresa para operar o sistema público da cidade, nada mais justo que a adminstração municipal tome todas as providências e adote todos os mecanismos de controle e fiscalização para evitar problemas futuros que possam impactar o dia a dia dos curitibanos.