A primeira prestação parcial de contas dos candidatos ao Governo do Paraná mostrou que os oito nomes estão na mesma urna, mas definitivamente não estão trabalhando com a mesma planilha.
As campanhas declararam, juntas, cerca de R$ 30,1 milhões em receitas e R$ 18,2 milhões em despesas contratadas. Os dados abrangem a movimentação realizada desde o início da campanha até 8 de setembro e foram disponibilizados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 15 de setembro. Como se trata de uma prestação parcial, os valores ainda podem receber atualizações e retificações.
A diferença de tamanho entre as campanhas é enorme. Sergio Moro (PL), Requião Filho (PDT) e Sandro Alex (PSD) concentram R$ 29,9 milhões, ou 99,4% de tudo o que foi arrecadado pelos oito candidatos. Os outros cinco, somados, ficam perto de R$ 170 mil. Politicamente são oito campanhas. Financeiramente, a divisão parece aquela mesa de casamento em que três convidados pediram o cardápio completo e os outros estão dividindo a entrada.
Moro declarou a maior receita: R$ 11,9 milhões. Desse total, R$ 10,8 milhões vieram da direção nacional do PL e cerca de R$ 1,1 milhão de pessoas físicas. As despesas contratadas somavam R$ 7,8 milhões, com R$ 4,2 milhões já pagos.
A produção para rádio, televisão e vídeo liderava os gastos, com R$ 3 milhões, seguida por serviços jurídicos ao custo de R$ 1,7 milhão; as pesquisas somaram R$ 705,6 mil, a publicidade com adesivos custou R$ 638,5 mil e outros R$ 470 mil com impulsionamento digital. É uma campanha em que câmera, advogado e pesquisa claramente não estão sobrevivendo de cafezinho.
Requião Filho aparece praticamente no mesmo patamar de arrecadação de Moro, com R$ 11 milhões, mas com uma peculiaridade: o recurso veio diretamente da direção nacional do PDT. Apesar do caixa robusto, as despesas contratadas eram de R$ 2,9 milhões, quase integralmente já pagas.
A produção audiovisual liderava, com R$ 1,1 milhão, seguida por material impresso (R$ 621,2 mil), serviços jurídicos, outros R$ 400 mil, com impulsionamento digital foi despendido R$ 240 mil e com pesquisas outros R$ 154 mil. Traduzindo: dinheiro havia entrado; uma boa parte dele ainda esperava para descobrir seu destino.
Sandro Alex, do PSD, declarou uma receita na ordem de R$ 7 milhões. Foram, segundo dados da Justiça Eleitoral, R$ 3,5 milhões da direção nacional do PP, outros R$ 3 milhões do PSD nacional e R$ 450 mil do PSD estadual. As despesas contratadas chegavam a R$ 7,2 milhões, embora R$ 3,87 milhões já tivessem sido pagos.
O jurídico é a maior conta até aqui: R$ 1,87 milhão — seguido por produção de rádio, TV e vídeo, R$ 1,2 milhão; serviços de terceiros somaram R$ 1,2 milhão, já com impulsionamento foram gastos R$ 964,8 mil e materiais impressos outros R$ 511 mil. Ter despesas contratadas superiores às receitas neste momento não significa, isoladamente, irregularidade: a despesa é contabilizada quando assumida, mesmo que ainda não tenha sido paga.
Saem os milhões e ficam os tostões
A partir daqui, os milhões praticamente desaparecem da conversa. Luiz França (Missão) declarou R$ 100 mil em receitas, integralmente repassados pela direção nacional do partido. A campanha já havia contratado cerca de R$ 115,3 mil, valor informado como integralmente pago. A maior despesa estava nos materiais impressos, com R$ 62,2 mil, seguida por gastos de R$ 43 mil com pessoal .
Comparado às três maiores campanhas, França está operando praticamente com o valor de uma única linha da planilha dos adversários. Alexandre Salomão (Mobiliza) apresentou R$ 34 mil em receitas, provenientes de apenas duas doações de pessoas físicas. A campanha havia contratado e pago cerca de R$ 33,9 mil.
O orçamento ficou praticamente dividido entre material impresso, com R$ 17,9 mil, e impulsionamento de conteúdo, com R$ 16 mil. Aqui não há muita margem para desperdício: se alguém pedir uma pizza na reunião, provavelmente precisa guardar a nota.
Samuel de Mattos (PSTU) declarou aproximadamente R$ 24 mil, repassados pela direção nacional do partido. As despesas contratadas estavam em R$ 23,1 mil, com cerca de R$ 7,5 mil efetivamente pagos naquele momento. A principal categoria de gasto eram serviços prestados por terceiros, que somavam aproximadamente R$ 13,6 mil. É uma estrutura financeira incomparavelmente menor que a observada nas candidaturas milionárias.
Tayná Miessa (UP) arrecadou aproximadamente R$ 13,3 mil: R$ 10,8 mil vieram de pessoas físicas e R$ 2,5 mil de financiamento coletivo. As despesas contratadas chegaram a R$ 18,4 mil, das quais R$ 10,8 mil tinham sido pagas. Os gastos estavam concentrados principalmente em materiais impressos. É uma campanha em que “otimizar recurso” deixa de ser expressão de consultoria e passa a ser necessidade prática.
Por fim, Adriano Funileiro (PCO) não havia declarado receitas nem despesas na prestação parcial feita à Justiça Eleitoral. Isso significa apenas que, no período abrangido pelos dados divulgados, a prestação apresentada não registrava movimentação financeira. Como as informações podem ser posteriormente atualizadas, esse retrato não deve ser confundido com o resultado final das contas da candidatura.
O abismo financeiro
Os números deixam clara a diferença de escala da eleição. Moro, Requião Filho e Sandro Alex operam campanhas de milhões; França, Salomão, Samuel e Tayná trabalham com dezenas de milhares; e Adriano Funileiro apareceu sem movimentação registrada nesse primeiro recorte.
Isso não significa que quem arrecada mais receberá mais votos — prestação de contas não é pesquisa eleitoral. Também não significa que despesas elevadas sejam suspeitas.
Os dados permitem acompanhar de onde vem o dinheiro e para onde ele está indo, justamente a finalidade da transparência prevista pela Justiça Eleitoral. Mas uma conclusão matemática é inevitável: 99,4% do dinheiro declarado está concentrado em apenas três das oito candidaturas. Na urna, todos têm um quadradinho do mesmo tamanho. No extrato bancário, definitivamente não.