A história política do Paraná mostra que não é incomum governantes tomarem medidas administrativas, como redução de tarifas, com vistas e interesse no processo eleitoral.
Nesta terça-feira (15), a praticamente duas semanas da eleição, Ratinho anunciou uma redução de 25% na tarifa mínima de água e esgoto — a partir de 1º de outubro até abril de 2029, após deliberação da Agepar.
O corte foi justificado pelo recebimento de R$ 4 bilhões, por parte da União, à título de restituição de impostos pagos indevidamente. Decisão que vinha há tempos sendo discutida dentro da Sanepar, em reuniões de conselhos, e com divergência por parte de representantes dos acionistas da companhia.
Não é uma ação isolada, nem inédita. Em julho de 1998, lembra um saudosista analista político, numa tarde fria de Curitiba, o então governador Jaime Lerner chamou os conselheiros políticos para uma reunião no Chapéu Pensador.
Naquela época, o período eleitoral era mais extenso e o então governador já percorria o Estado em busca da renovação do mandato.
O clima, que já era gelado, ficou ainda mais gélido, após a escolha do local do encontro e o tema que seria debatido. Lerner retornava de uma agenda política hostil no interior, onde havia recebido uma enxurrada de reclamações sobre a gestão.
Redução em 50%
Extremamente amoado com o que ouvira e temendo o resultado nas urnas, Lerner se reuniu com o núcleo duro da campanha para tentar reverter a insatisfação dos paranaenses. E aí, veio a ideia.
De olho na reeleição, Lerner anunciou, de forma unilateral, a redução de 50% das tarifas de pedágio do Anel de Integração — com o contrato recém iniciado com as pedageiras.
Em 4 de outubro de 1998, Lerner foi reeleito governador do Paraná, no primeiro turno, com 52,21% dos votos válidos, contra Roberto Requião, que obteve 45,91% dos votos nas urnas.
Lerner alcançara seu objetivo com a medida eleitoreira. As concessionárias de pedágio recorreram à Justiça alegando desequilíbrio financeiro. E a consequência da redução unilateral a história também conta — e não só do viés eleitoral.
Os valores da tarifa do pedágio foram recompostos por ordem judicial e acordos posteriores elevaram as tarifas, gerando uma herança de longos debates jurídicos e políticos no estado.
Era o início do malfadado contrato de concessões finalizado em 2021 — que acabou como um dos grandes escândalos de corrupção do Paraná.
A passagem de Beto
Em janeiro de 2004, foi a vez de Beto Richa, mas em outra circunstância e outra época — não foi durante a campanha, mas em ano eleitoral. O tucano era vice-prefeito de Curitiba e deu um “olé” no então prefeito Cássio Taniguchi.
Beto não tinha a caneta, mas aproveitou a viagem do pefelista para Portugal. Antes de embarcar, Taniguchi havia autorizado um aumento de 15% na passagem de ônibus na capital — o valor subiria de R$ 1,65 para R$ 1,90.
Beto Richa assumiu o Palácio 29 de Março, com a ausência do prefeito, e suspendeu o reajuste — mantendo a tarifa em R$ 1,65.
No dia 31 de outubro de 2004, Richa bateu o petista Ângelo Vanhoni, com 54,78% dos votos no segundo turno. E iniciou a trajetória política com mais dois anos à frente da prefeitura e quase outros oito no Palácio Iguaçu.
Os momentos políticos eram outros, assim como a legislação vigente. Mas o propósito parece ser exatamente o mesmo.