Justiça quebra sigilo de empresa em investigação de fraude em licitação e suspeita de propina para Guto

Polícia investiga suposta fraude e direcionamento numa licitação de R$ 3,8 milhões para aquisição de unidades fixa e móvel de treinamento virtual de tiro

O fato de ter sido preterido pelo governador Ratinho Junior para disputar o Governo do Estado na eleição de outubro, não é a única dor de cabeça de Guto Silva neste momento.

Reportagem do jornal O Globo, escrita por Rodrigo Castro, da coluna de Lauro Jardim, divulgada nesta quinta-feira (16), revela uma investigação em curso de uma suposta fraude e direcionamento numa licitação de R$ 3,8 milhões para aquisição de unidades fixa e móvel de treinamento virtual de tiro para a Polícia Civil do Paraná.

A empresa vencedora do certame, lançado em 2019, foi a EBTS Empresa Brasileira de Tecnologias e Sistemas, do empresário Adolfo Jachinski Neto. Mas um desacerto entre empresários acabou expondo, através de gravações, um possível crime que pode ajudar a explicar a decisão de Ratinho de indicar Sandro Alex e não Guto para concorrer ao Palácio Iguaçu. O governo rechaça esta conexão entre os dois fatos.

“Diálogos colhidos pelos investigadores indicam a existência de tratativas prévias para direcionamento de um pregão, com referências a ajustes entre participantes, elevação artificial de valores e pagamento de propina, além de menções a uma eventual influência de agentes públicos. Um dos citados pelo empresário em gravações foi Guto Silva (PSD), ex-secretário de Cidades e braço-direito de Ratinho Jr (PSD)”, cita o Globo.

A própria polícia paranaense investiga a suspeita de pagamento de propina para Guto Silva — na época, chefe da Casa Civil durante a primeira gestão de Ratinho. Ainda segundo O Globo, o juiz Leandro Campos determinou a quebra do sigilo bancário de Jachinski Neto e da EBTS para apurar supostos crimes de peculato, corrupção passiva e fraude em licitações.

O Blog Politicamente teve acesso à decisão judicial, do dia 6 de março de 2026, — que tramita em segredo de justiça. O magistrado, ao deferir o pedido de quebra de sigilo bancário, pontua que “nos diálogos, há referências a agentes da Administração Estadual à época dos fatos, notadamente Luiz Augusto Silva (Guto Silva), então Secretário-Chefe da Casa Civil do Estado do Paraná, e Rômulo Marinho Soares, Secretário de Estado da Segurança Pública entre 2019 e 2022, bem como menções genéricas a pagamentos destinados a terceiros, inclusive com suposta finalidade de financiamento de campanha política”.

É importante frisar que no próprio despacho, o juiz assevera, citando a polícia, que “embora existam indícios de tratativas ilícitas relacionadas ao procedimento licitatório, ainda não foi possível comprovar, de forma objetiva, a efetiva realização de pagamentos indevidos, tampouco identificar com precisão seus eventuais destinatários”. Ou seja, Guto não é investigado.

Foi justamente por conta desta suspeita é que foi pedido e autorizado o afastamento do sigilo bancário tanto do empresário Adolfo Jachinski Neto e da empresa EBTS.  Sem falar, na transcrição de um áudio que consta na decisão judicial.

Adolfo:(…) a licitação amanhã é 8:30 cara amanhã 8:30 do dia 10 do dia 10 tá agora dentro do dia 10 (…).

(…)

Adolfo: Eu faço, vou fazer uns três quatro lances, o Márcio vai dar uns três de quatro lances baratinho, 100 cinco, 10 15 para nós fazer uma disputa para não ter problema para você. Você ganha a licitação. (…)

TC apontou cinco irregularidades

Quando as propostas das empresas participantes foram abertas, o resultado foi o seguinte: a EBTS ofereceu a menor proposta R$ 3.840.000,00, a segunda e a terceira colocadas apresentaram exatamente o mesmo valor  R$ 3.842.000,00 — uma diferença de apenas R$ 2 mil. O quarto fornecedor apresentou o orçamento de R$ 5 milhões e a quinta empresa o valor de R$ 6.459.998,33.

Não só este áudio transcrito pelo juiz, mas outros circularam de forma apócrifa em 2022 — quando a Polícia Civil abriu um inquérito para apurar o caso. O Tribunal de Contas do Estado do Paraná também instaurou um procedimento no ano seguinte — através da 5ª Inspetoria de Controle Externo.

Os técnicos apontaram cinco supostas irregularidades no processo licitatório do governo: ausência de comprovantes quanto às solicitações de orçamentos às empresas com as especificações detalhadas do objeto; ausência de orçamentos com todas as especificações dos itens do objeto conforme Termo de Referência; não utilização de preços praticados em outras contratações realizadas por órgãos públicos de objeto com características iguais ou semelhantes no Mapa de formação de preços; falha na verificação das especificações dos itens do objeto constantes no edital e no Termo de Referência para fins do recebimento do bem; e, por fima, a entrega do bem fora do prazo estabelecido no Edital e no Contrato.

O processo do TC foi relatado pelo conselheiro Augustinho Zucchi que, diante das irregularidades encontradas, fez três recomendações, dentre elas para que “sempre que possível, ampliar as fontes de pesquisa, utilizando, preferencialmente, licitações de outros órgãos e entidades quando o objeto e/ou serviço for, ao menos, semelhante, nos termos do estabelecido nas normas pertinentes”.

Conselheiro aponta que simulador do Paraná foi 50% mais caro que o de Goiás

O conselheiro Maurício Requião apresentou voto divergente pela procedência da Tomada de Contas Extraordinária proposta pela área técnica, e corroborada pelo Ministério Público de Contas, para julgar as contas irregulares dos resposnáveis e aplicação de multas.

No entanto, um trecho do voto de Requião chama a atenção. O conselheiro cita que um ano antes, em 2018, a Secretaria de Segurança Pública do Estado de Goiás fez a compra de um simulador móvel no valor de R$ 1.604.614,00, enquanto na licitação no Paraná “o simulador móvel com características aparentemente semelhantes foi orçado em R$ 2.416.000,00” — um acréscimo de 50% num período de um ano.

A diferença é que enquanto o estado de Goiás contratou apenas uma unidade móvel de treinamento virtual, o Paraná adquiriu também uma unidade fixa — chegando ao valor global de R$ 3.833.000,00. Requião acabou sendo voto vencido, prevalecendo o posicionamento do relator Augustinho Zucchi.

O desacerto que expôs a suposta fraude

As gravações que estão em posse da Polícia Civil do Paraná foram feitas e entregues, segundo O Globo, pelo empresário Jonny Braga que cobrava uma dívida de R$ 4 milhões por ter sido retirado da sociedade da EBTS. Adolfo Jachinski Neto, por sua vez, o acusava de chantagem e tentativa de extorsão — o que resultou em registro de boletins de ocorrência de parte a parte.

Para tentar comprovar a dívida, Jonny Braga passou a gravar conversas com Adolfo. Foram, ainda segundo o jornal carioca, ao menos cinco áudios com discussões sobre estratégias para ganhar uma licitação e pagamento de vantagens a terceiros. “Em um deles, às vésperas do certame, o empresário investigado demonstra conhecer a dinâmica do pregão e afirma que seriam realizados lances de pequeno valor apenas para simular competitividade”.

O colunista Lauro Jardim transcreveu parte dos áudios em que teve acesso, onde Adolfo se refere a Guto Silva como sendo “a mão direita do cara” (em referência a Ratinho Jr) e diz que ele controla a agenda do governador e três secretarias”.

— Ele tem a segurança debaixo dele, o Detran debaixo dele e a Celepar. As três secretarias são do Guto.

Na sequência, o empresário emenda:

— Então, assim, o cara lá dele falou pra mim “olha, o negócio é o seguinte: vamos fazer o acerto aí, tal e coisa, vamos fazer o projeto, tal e coisa, daí nós temos que puxar dinheiro pra campanha. Falei: “bom, não tem problema, não tem problema” Não saindo do meu bolso…O que eu vou fazer? É assim ou nada né, cara?

Outro lado

Procurado pelo O Globo, Jonny relatou que “fez as gravações em 2019 e reafirmou o conteúdo dos áudios e as acusações contra Adolfo”. Disse ainda que “Adolfo falou que pagava propina a agentes públicos e afirmou que foi ameaçado de morte duas vezes por um motoqueiro depois de levar o caso às autoridades”.

Tanto Adolfo Jachinski Neto quanto a EBTS não responderam aos questionamentos do jornal. O espaço segue aberto para manifestações.

Por meio de nota enviada ao colunista Lauro Jardim, Guto Silva afirmou que “não conhece o empresário citado, jamais foi sócio ou manteve qualquer relação com ele ou com a empresa mencionada” e acrescentou que “o pregão 1133/2019 foi conduzido pela Secretaria de Segurança Pública, sem qualquer participação da Casa Civil ou do então secretário”.

O Blog Politicamente procurou o coronel do Exército, Rômulo Marinho Soares, que foi secretário da Segurança Pública do Paraná no período da licitação que é objeto de investigação da Polícia Civil. Ele não respondeu aos questionamentos.

Já o Governo do Paraná informou, por meio de nota, se limitou a dizer que “tem regras rígidas de controle, compliance e transparência e não responde por supostos áudios atribuídos a uma desavença societária”.

Afirmou ainda que “é leviana e mentirosa a tentativa de relacionar a decisão da escolha do pré-candidato ao passado do ex-secretário das Cidades, Guto Silva. O texto tenta atribuir a ele uma condição que o próprio despacho do Poder Judiciário deixa muito claro: Guto Silva não é investigado. Pela lógica da matéria, o processo de disputa judicial da sociedade também já foi concluído e esclarecido – o que não é verdade”.

O governo finaliza pontuando que “a licitação, feita por meio de pregão eletrônico, de forma transparente, foi concluída com a entrega dos objetos propostos”.

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