Licitação milionária de manutenção de frota acende luz amarela

Empresa que venceu licitação de R$ 180 milhões foi reprovada ao apresentar solução tecnológica que não atende edital do governo

Atualizado às 10h09 – 11/2/2026

Palacianos mais antigos, de cabelo branco, sinalizaram certo receio com o andamento de uma licitação de mais de R$ 180 milhões que prevê a contratação do gerenciamento e manutenção da frota de veículos do  Estado do Paraná. O certame vem recebendo atenção não só na sede do Poder Executivo, mas também por membros de órgãos de controle.

A preocupação de alguns assessores é reviver as mazelas do contrato anterior, na gestão do ex-governador Beto Richa, com a empresa JMK Serviços, que terminou nas páginas policiais com a deflagração de operações policiais e até de uma CPI na Assembleia Legislativa.

O pregão eletrônico número 003/2025 está em curso — sendo declarada vencedora do certame a empresa QFrotas Sistemas LTDA. Mas na semana passada, a empresa foi reprovada na Prova de Conceito (POC) — que é um teste prático realizado, antes da assinatura do contrato, com a empresa vencedora para aferição da solução técnica ofertada e se está de acordo com os requisitos técnicos exigidos no edital.

Essa POC aconteceu no dia 19 de janeiro de 2026, às 9h, na Sala de Situação da Secretaria de Estado da Administração e da Previdência (SEAP) — no Palácio das Araucárias. A sessão, no entanto, teve de ser adiada após a comissão julgadora constatar que a solução apresentada não atendia integralmente aos critérios previstos no edital, sendo concluída apenas no dia 23.

O Blog Politicamente teve acesso ao documento que reprovou a empresa. A comissão julgadora assevera que as falhas observadas durante a apresentação da QFrotas não foram pontuais ou decorrentes de oscilações externas, mas sim estruturais da aplicação ofertada.

“Considerando que o item 1.4.8.2 do Termo de Referência condiciona a aprovação ao atendimento integral dos grupos de subitens essenciais, esta Comissão manifesta entender pela NÃO APROVAÇÃO técnica da empresa QFROTAS SISTEMAS LTDA na etapa de Prova de Conceito”.

Este relatório de avaliação da prova de conceito foi encaminhado ao pregoeiro Josias Pereira da Cruz para que ele tome as providências cabíveis.

Conjunto de coincidências

As dúvidas que pairam sobre este certame, cita uma fonte palaciana, não param por aí. No final de novembro de 2021, a QFrotas foi aberta e chama a atenção, cita a fonte, do endereço declarado na Junta Comercial do Paraná: Travessa Madre Julia, 78, bairro Cristo Rei, em Curitiba.

Neste mesmíssimo endereço funcionava, coincidentemente, a empresa Quality Flux Automação e Sistemas Ltda — que se envolveu no escândalo que ficou conhecido como Operação Pecúlio, deflagrado pelo Ministério Público Federal. A empresa tinha um contrato na área de monitoramento de radares em Foz do Iguaçu e acabou denunciada pelo MPF.

As coincidências vão além. A QFrotas celebrou um contrato com a LFB Serviços Administrativos LTDA cujo sócio-administrador é Jairo Cezar Vernalha Guimarães — que por sua vez era o diretor da JMK Serviços. A LFB funciona na Rua Alameda Doutor Carlos de Carvalho, 555, conjunto 122, no Centro de Curitiba. Exatamente onde está sediada a QFrotas. Até os contatos de email e de telefone são os mesmos. 

Esta relação entre a QFrotas e LFB Serviços, que era do diretor da JMK, foi motivo de uma diligência promovida pela Seap no início de janeiro deste ano. O Blog Politicamente teve acesso ao documento que questiona esta coincidência.

QFrotas nega ligação com JMK

A explicação é dada por Ludomir Eduardo Furmann, representante legal da Qfrotas, no dia 8 de janeiro. Ele cita que a empresa resolveu contratar a LFB, do senhor Jairo Cezar Vernalha Guimarães, “com o intuito de expandir sua atuação no mercado de gestão de frotas”, uma vez que Jairo Vernalha “é profissional com notório conhecimento do mercado brasileiro de gestão de frotas, para a prestação de serviços específicos de consultoria funcional, treinamentos e de atividades comerciais”.

Sobre a coincidência das duas empresas funcionarem no mesmo endereço comercial, Ludomir Eduardo Furmann explicou que “ao contratar a LFB e Jairo, para viabilizar a prestação dos serviços contratados, a QFROTAS cedeu seu endereço comercial para que a LFB pudesse registrar seu contrato, visto que, na ocasião, a LFB e Jairo não detinham condições econômicas de ter um endereço comercial próprio”.

Por fim, o representante da QFrotas declara que “não há qualquer relação entre a QFROTAS SISTEMAS LTDA e a empresa mencionada: JMK SERVIÇOS S/A”.

São justamente estes conjuntos de coincidências, este emaranhado de CNPJ’s e o histórico desastroso do contrato da JMK com o Governo do Paraná, que formam um panorama que, na visão dos “cabeça-branca”, pode atiçar os olhares dos órgãos de controle.

Outro lado

Após a publicação desta reportagem, a assessoria de imprensa da QFrotas enviou uma nota ao Blog Politicamente. A empresa cita que “na época da implantação do contrato, o Estado operava sob modelo descentralizado de manutenção de frota, com grande volume de notas provenientes de diferentes oficinas, sem padronização tecnológica ou sistema integrado de gestão. A adoção do modelo centralizado representou mudança estrutural relevante e exigiu período de adaptação administrativa, tendo contrariado muitos interesses”.

Cita ainda que foi aberto um inquérito que resultou no indiciamento de 14 pessoas no âmbito da Operação Peça Chave. Contudo, a QFrotas registra que “o próprio Ministério Público requereu o arquivamento do procedimento por ausência de indícios suficientes de materialidade e autoria, conforme manifestação formal nos autos”.

“A decisão acolheu o requerimento ministerial, reconhecendo a inexistência de justa causa para prosseguimento da persecução penal. Também destaca-se que Jairo Cezar Vernalha Guimarães, já após o arquivamento do inquérito, voltou a atuar no setor privado e atualmente exerce o cargo de CEO da QFrotas, empresa que atua no segmento de gestão de frotas”.

Considerando o interesse público envolvido e a repercussão do tema, segue a empresa QFrotas, “entendemos relevante que essas informações integrem a contextualização da matéria, assegurando ao leitor uma visão completa e equilibrada dos fatos”.

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