Uma movimentação estranha e atípica no dia 17 de março de 2025 no “Condomínio Maria Raquel”, em Fazenda Rio Grande, fez com que o guarda municipal de Curitiba Elias Souza Costa, que também é sindico do condomínio, fizesse uma denúncia ao Gaeco — Grupo de Atuação de Combate ao Crime Organizado.
O guarda relatou que o prefeito da cidade, Marco Marcondes, recebeu a visita de dois homens em seu condomínio, “os quais chegaram em veículo BMW de placas TAY1F00”. O encontro entre o prefeito e os visitantes, cita o denunciante, ocorreu em um quiosque do condomínio.
Um dos visitantes portava uma bolsa de grande volume. “Após uma breve conversa, o prefeito dirigiu-se à sua residência e retornou com uma mochila vazia. Pouco tempo depois, os três deixaram o quiosque, os dois homens visitantes entraram na BMW e o prefeito voltou para sua casa com um volume considerável na mochila”.
Por conta da suspeita de envolvimento de Marcondes, o caso foi remetido para a Subprocuradoria Geral — mais especificamente para o Núcleo Criminal II que investiga e processa crimes cometidos por prefeitos e, consequentemente, ao Tribunal de Justiça do Paraná por causa da prerrogativa de foro.
Foi a partir desse relato, anônimo incialmente, que o MP, conduzido pela promotora Karinne Romani iniciou a investigação que, em novembro deste ano, culminou com a prisão de Marco Marcondes e outras quatro pessoas na operação Fake Care — que descobriu um esquema de devio de dinheiro de mais de R$ 10 milhões em contratos firmados sem licitação com a prefeitura de Fazenda Rio Grande.
Uma das primeiras diligências foi confirmar se o tal “condomínio Maria Raquel” era de fato onde residia Marco Marcondes. Confirmado o endereço, o Gaeco foi até o local para coletar as imagens das câmeras de segurança do condomínio para, logo em seguida, identificar o dono do carro de luxo.
A BMW de luxo chamou a atenção

Aparecia, pela primeira vez, o nome de Alberto Martins de Faria, auditor do Tribunal de Contas do Estado do Paraná (TC) e apontado pelo MP como chefe do esquema criminoso. A BMW X6, avaliada em quase R$ 1 milhão, pertence ao funcionário público. E não foi só este “carrão” que surgiu na busca feita pelo MP.
Documentos da investigação mostram que Alberto Martins de Faria tem outros seis carros. Além da BMW X6, que aparece nas imagens, ele é dono de outras duas BMW, um Porsche, uma Mercedes, um Volvo e um Jeep Renegade. Um patrimônio suspeito mesmo para um funcionário do TC que, em fevereiro de 2025, recebeu R$ 43.105,89 como salário.
Com o CPF de Alberto Martins de Faria, o MP identificou cinco empresas no nome dele. Em uma delas, aparecia uma sociedade com Samuel Antônio da Silva Nunes — que era sócio administrador da AGP Saúde, que não tinha nenhum funcionário registrado. O fio do novelo começava a ser puxado e não foi difícil chegar até os contratos públicos.
“Registra-se que a referida empresa realizou cerca de 16 contratações com municípios diversos , todas voltadas à testagem domiciliar de doenças pré-existentes e comorbidades, sendo que duas delas com o Município de Fazenda Rio Grande”
Os valores, um de R$ 4,5 milhões e outro de R$ 9 milhões, além do modelo de contratação, através de chamamento público tendo a AGP como única participante, instigou o faro do MP. Desde a criação da empresa, a AGP Saúde Ltda. participou de 16 procedimentos junto a oito cidades do Paraná, sendo que, destaca o MP, apenas no ano de 2024 recebeu mais de R$ 27 milhões.
Após consultar o CPF do empresário Samuel Antônio da Silva Nunes, os dados mostravam que ele era dono de um carro modelo o FIAT/FASTBACK avaliado em pouco mais de R$ 130 mil e a empresa estava registrada no endereço residencial — um pequeno apartamento no Centro de Curitiba. Patrimônio, mais uma vez, que parecia incompatível com o volume de contratos e recursos públicos.
Ao analisar os chamamentos públicos da prefeitura de Fazenda Rio Grande, os investigadores começaram a se aproximar do então secretário de Saúde, e depois da Fazenda, Francisco Roberto Barbosa. Após as quebras de sigilo bancário e telefônico, autorizadas pelo TJ, o MP identificou que entre 2022 e 2025, a AGP Saúde movimento R$ 35 milhões.
Fernando Gomes foi o último a ser identificado

Até então Abrilino Fernandes Gomes, comentarista esportivo conhecido como Fernando Gomes, aparecia nas imagens das câmeras de segurança do condomínio, ao lado do prefeito e do auditor ddo TC, mas não tinha sido identificado.
No dia 6 de maio, Fernando Gomes entra com um carro modelo Creta no condomínio para se encontrar com Marcondes. Ao consultar a placa do veículo, o MP chega em Fernando Gomes — o carro estava registrado no nome da filha, que sequer tinha completado 18 anos.
Descobriu-se em seguida que o comentarista havia sido chefe de gabinete do ex-prefeito de Contenda, município que contratou a AGP Saúde num chamamento público em que ela participou sozinha e ganhou um contrato de R$ 1,5 milhão para o serviço de testagem domiciliar de doenças pré-existentes e comorbidades.
- Leia mais: Com decisão do STJ, presos na Fake Care querem tirar a tornozeleira
TJ solta prefeito Marcondes e os demais presos na Fake Care
TJ julga pedidos de liberdade dos presos na operação Fake Care
MP denuncia prefeito Marco Marcondes e mais 5 em esquema de desvio na Saúde
Fernando Gomes vai cumprir prisão domiciliar com uso de tornozeleira
Presos mantêm silêncio em depoimento; vice assume prefeitura de Fazenda Rio Grande
MP suspeita que Marcondes recebeu dinheiro de propina no jardim de casa
MP tem imagens da divisão da propina em Fazenda Rio Grande
Prefeito da RMC e auditor do TC são presos em operação do MP
Identificados todos os envolvidos, o MP juntou documentos públicos de licitações vencidas pela AGP Saúde, assim como cópias dos contratos. Paralelamente, uma equipe do MP se debruçava sobre os dados bancários e registros telefônicos obtidos com a quebra dos sigilos. Foi a fase final para fechar o quebra cabeça e deflagrar a operação Fake Care.
Diante dos achados recolhidos durante os mandados de prisão e busca e apreensão, o MP abriu novos inquéritos para apurar a contratação da mesma AGP Saúde em outras oito cidades do Paraná — apuratório que também está sendo feito pelo TC do Paraná.
O que se sabe, a partir daí, é público. Os cinco foram presos, denunciados e soltos em seguida por ordem tanto do TJ do Paraná quanto do Superior Tribunal de Justiça. O prefeito Marco Marcondes segue afastado da prefeitura de Fazenda Rio Grande por ordem da Justiça.
Nesta segunda-feira (17), Marcondes divulgou um vídeo nas redes sociais em que diz estar tranquilo e que confia na Justiça. Mas não deu detalhes sobre a acusação.