O Tribunal Regional Eleitoral do Paraná (TRE-PR) passará por uma eleição inédita. Pela primeira vez uma vaga de membro efetivo da classe de advogado será disputada exclusivamente por mulheres.
A medida é da presidente do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, desembargadora Lídia Maejima, alinhada à portaria do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), editada em março de 2025 pela ministra Carmen Lúcia, que institui o Programa Nacional de Incentivo à Participação Feminina na Justiça Eleitoral e à Promoção de Paridade de Gênero nos Tribunais Regionais Eleitorais.
Mesmo pairando dúvidas com relação à portaria do TSE, se seria de caráter impositivo ou uma recomendação, essa articulação passou também pelo atual presidente do TRE paranaense, Sigurd Bengtsson, e teve o pleno apoio do desembargador eleitoral José Rodrigo Sade, cujo mandato se encerra em março de 2026 — abrindo a vaga exclusiva para as mulheres.
Mesmo com a possibilidade de reeleição por mais um mandato de dois anos, Sade apoiou de pronto a iniciativa de promover a paridade de gênero no TRE.
As inscrições se encerraram nesta semana e 23 advogadas manifestaram o interesse em disputar a cadeira na Corte Eleitoral. Ainda não há data definida para eleição dentro do TJ Paraná, que vai formar uma lista tríplice com três candidatas. Esta lista é encaminhada ao TSE e por fim ao presidente Lula que vai escolher a nova integrante do TRE do Paraná.
Apesar de todas as candidatas serem advogadas, a eleição não passa pelo crivo da OAB do Paraná, ficando exclusivamente “dentro do TJ” — fator que deixa a competição ainda mais indefinida.
A bolsa de apostas

O Blog Politicamente conversou com mais de uma dezena de fontes, tanto da advocacia quanto da magistratura paranaense. E a bolsa de apostas indica algumas favoritas, mas ainda dentro de um cenário incerto.
Das 23 inscritas, algumas despontam como mais chances por motivos distintos. Tatiane de Cássia Viese é a atual desembargadora eleitoral substituta, mas ela tem atuado no TRE praticamente como efetiva porque o titular ainda não foi escolhido pelo presidente Lula.
Tatiane teria o apoio do futuro presidente da Corte Eleitoral, Luciano Carrasco Falavinha, que mantendo a colega faria um aceno aos demais integrantes do colegiado. Comenta-se que ela também seria um dos nomes preferidos do ex-presidente do TJ, Adalberto Xisto Pereira, que tem excelente interlocução entre seus pares.
O fato do filho de Tatiane trabalhar no gabinete do desembargador Andrei Rech no TJ, pode indicar uma simpatia do magistrado à candidatura da advogada.
Neta do desembargador Jeorling Cleve e filha do professor Clèmerson Merlin Clève, a advogada Ana Carolina de Camargo Clève também desponta na bolsa de apostas. Ela, que foi presidente do Iprade (Instituto Paranaense de Direito Eleitoral) por duas vezes e professora de Direito Eleitoral, é esposa do advogado eleitoralista Guilherme Gonçalves — que aliás já comentou com alguns clientes que vai deixar de advogar no TRE se a mulher exercer o mandato de desembargadora.
Até porque, cita uma fonte, Guilherme Gonçalves estaria finalizando uma fusão com um grande escritório com atuação nacional, podendo vir a se dedicar a outras áreas do Direito.
Carol Clève, como é conhecida no mundo jurídico, teria, portanto, o apoio do pai e do marido na disputa pela vaga ao TRE, além de circular com desenvoltura pelo TJ paranaense e também no TSE. E pela proximidade de Guilherme Gonçalves com o Governo Federal, caso ela figure na lista tríplice, as chances de chegar à Corte Eleitoral aumentam.
A advogada eleitoral e criminalista Nicole Trauczynski Muffone foi outro nome bastante citado. Ela, que é companheira do ex-desembargador do TRE Júlio Jacob, tem boa interloculação com os desembargadores votantes e teve atuação destacada, por exemplo, em ações criminais decorrentes da operação Lava Jato, além de já ter advogado para o ex-deputado federal André Vargas — que continua muito bem articulado com a presidência da República.
Misoginia?
Aqui é necessário abrir um parênteses. Apesar de tanto Nicole quanto Carol Clève aparecerem com reais chances, existe, segundo algumas fontes do Blog Politicamente, um movimento nos bastidores para minar a candidatura de ambas por conta do relacionamento com Júlio Jacob e Guilherme Gonçalves, respectivamente.
O que, uma das pessoas ouvidas, qualificou como um absurdo que pode marcar a eleição pela misoginia — “justamente na primeira vaga dedicada exclusivamente às mulheres, a gente já ouve uma resistência por conta dos maridos/namorados. Isso é inaceitável”.
Fechado o parênteses. A advogada Mariane Lübke é outra que tem boas chances na disputa. Ela, que é professoa de direito administrativo e eleitoral, é esposa de Nildo José Lübke, que já foi diretor da Itaipu, indicado pelo ex-governador Orlando Pessuti, é servidor público e também tem cargo em comissão na Casa Civil no governo de Ratinho Junior.
Ele foi diretor jurídico da Fomento Paraná no início da gestão Ratinho, em 2019. Aliás, esta proximidade de Nildo com Ratinho é vista como uma possibilidade de algumas alas do Palácio Iguaçu apoiarem Mariane Lübke.
A advogada eleitoralista e criminalista Juliana Bertholdi está no rol das mais citadas. Com experiência no Eleitoral, tendo advogado para o PDT na última eleição de Curitiba, ela foi uma das autoras da ação que resultou na cassação do mandato de Deltan Dallagnol no TSE, em 2022. Juliana Bertholdi inclusive citou na época que Deltan estaria inelegível para o pleito de 2026.
Por ironia do destino, hoje Deltan é embaixador do Novo, partido pelo qual o então candidato/empresário/médico João Guilherme de Moraes disputou a Prefeitura de Curitiba em 2020 tendo Juliana Bertholdi no time jurídico.
Juliana Bertholdi vai contar com o apoio do advogado e ex-procurador de Justiça Paulo Busato para chegar ao TRE
Candidatas “próximas” de Lula e Bolsonaro
Irmã do desembargador Roberto Massaro, o nome de Vanessa Massaro foi lembrado por algumas das pessoas ouvidas pelo Blog Politicamente. Ela recentemente disputou a vaga de desembargadora do TJ do Paraná, mas acabou não passando pela “primeira fase” na OAB. Um fator que poderia pesar contra é a proximidade política com o PL Mulher no Paraná.
Na rede social ela se apresenta como conselheira no partido — tendo várias fotos ao lado da ex-primeira dama Michele Bolsonaro. Como a palavra final é do presidente Lula, algumas fontes consideram difícil a indicação para o TRE do Paraná.
Ao contrário de Vanessa Massaro, a advogada Luciane Maria Mezarobba teria bom trânsito com Lula caso venha a integrar a lista tríplice. Ela foi casada com o advogado Manoel Caetano que atuou na defesa do presidente e o acompanhava diariamente no período em que o petista esteve preso em Curitiba.
Prima de Guto Silva
Correndo por fora, Caroline Amadori Cavet, que seria prima do secretário das Cidades Guto Silva, é professora de Direito Civil e Empresarial. Há quem aposte que alguns palacianos podem vir à ajudá-la na campanha para o TRE.
As 23 inscritas
ALINE SORPREZO DE ALMEIDA
AMANDA DE OLIVEIRA SILVA MACUCO
ANA CAROLINA DE CAMARGO CLÈVE
ANNA CAROLINA ALMEIDA QUADROS
CAROLINE AMADORI CAVET
CLAUDETE CARVALHO CANEZIN
ISABELLA ROCHA NOBRE DE ABREU
IVETE DE CARVALHO LINHARES SERPA
IZABELE KAROLINE RODRIGUES PADILHA
JOSYANE MANSANO
JULIANA BERTHOLDI
LUCIANE MARIA MEZAROBBA
LUCIANA STRINGHINI
MARIA DE LOURDES ROCHA DE SOUZA
MARIANE YURI SHIOHARA LÜBKE
MARILUZ CAPELETO JANDREY
NICOLE TRAUCZYNSKI MUFFONE
NINA ROSA DE LIMA
QUEILA DA SILVA TEROSSI MAKITA
RAFAELA ALMEIDA NOBLE
SUÉLEN JUNGLES DE LIMA
TATIANE DE CÁSSIA VIESE
VANESSA MASSARO