Vitória de Sergio Moro e a sucessão que Ratinho não conseguiu construir

Com mais de três milhões de votos, que representam 50,10% do total válido, Sergio Moro é o novo governador do Paraná. Moro se sentará na cadeira do terceiro andar do Palácio Iguaçu no dia 5 de janeiro, para um governo que já começa com o apoio da maioria dos deputados na Assembleia Legislativa.

Em sua primeira fala, já eleito, Moro disse que o Paraná não tem dono e quem manda no estado é o povo. Lembrou que poucos prefeitos atuaram diretamente em sua campanha e enfatizou a participação da prefeita de Ponta Grossa, Elizabeth Schimidt, sua grande apoiadora. Ele destacou ainda a vitória de sua esposa como deputada federal.

A vitória de Sérgio Moro não pode ser creditada apenas a uma brilhante estratégia de marketing ou à sua recente trajetória como político.

Boa parte do resultado obtido nas urnas pelo ex-juiz, ex-ministro e, em breve, ex-senador está diretamente relacionada à polarização política presente de forma muito intensa nos três estados da Região Sul e, principalmente, às falhas do atual governador, Ratinho Junior, em articular todo o processo para fazer o seu sucessor.

Deixou seu plano A, Guto Silva, de lado após empoderar dois correligionários: Alexandre Curi e Rafael Greca. A disputa interna foi tão acirrada que o lema Unidos e em Paz parecia apenas uma frase montada pelo marqueteiro argentino Jorge Gerez — que também tem sua parcela de responsabilidade nos números deste 4 de outubro.

Até a reta final da campanha, tentava convencer o QG da campanha que era possível vencer com Sandro Alex no 1º turno — veja só. Todos viam a dificuldade — menos ele. Acreditava que o toque de midas do governador super popular do Paraná levaria Sandro Alex, de imediato, para os 20%.

Quem tinha muitas opções no início, acabou recorrendo ao improvável Sandro Alex — que em abril topou o desafio. Deixou uma reeleição praticamente certa para embarcar no projeto de Ratinho.

Para compreender esse cenário, é importante destacar que Ratinho não entendeu a máxima de que reeleição é uma coisa, sucessão é outra. O resultado deste domingo é a prova disso.

Ao contrário do que se pode deduzir de imediato, não foi o candidato de Ratinho o derrotado. Ao contrário, Sandro Alex sai vencedor, pois entrou na disputa sem ser o preferido em um cenário em que os nomes dos concorrentes já estavam definidos. Sandro saiu de praticamente zero para chegar a 25,35% dos votos válidos.

O resultado deste domingo é muito diferente do da campanha de 2018, quando, de forma hábil, Ratinho conquistou o cargo de governador ainda no primeiro turno, com quase 60% dos votos.

Para concorrer, Ratinho deixou a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e, de forma astuta, reuniu um número muito grande de aliados.

Ao mesmo tempo, desvinculou a própria imagem da de Beto Richa, que encerrava o segundo mandato como governador em meio a uma delicada crise de imagem, diante de inúmeras acusações de possíveis fraudes e corrupção.

Já em 2022, foi reconduzido à função com 70% da preferência.

Ratinho Junior encerra seu segundo mandato com mais de 80% de aprovação.

Mas, afinal, o que mudou? 

Uma possibilidade é ter ficado embriagado pelo canto da sereia, que ele próprio decidiu ouvir do desejo legítimo de concorrer à Presidência da República.

Entorpecido, parece ter esquecido de olhar para dentro do próprio quintal, e deixou o PL e o Novo migrarem para a trincheira adversária. Ratinho não preparou o seu sucessor e apenas apostou em Guto Silva, um nome desconhecido pela maioria dos eleitores e preterido pelos aliados.

Apesar de todos os sinais apontarem que a escolha não iria prosperar, Ratinho insistiu em manter Guto e negou a vaga ao deputado Alexandre Curi, um nome forte, muito conhecido e com grande capital político para a disputa.

Aliás, os votos que Alexandre Curi teve na eleição para o Senado, 1,9 milhão, garantiria o 2º turno contra Moro. O presidente da Assembleia Legislativa fez era de 400 mil votos mais que o “homem da infraestrutura”.

Diante da indefinição “eterna de Ratinho”, Moro aproveitou a falta de um concorrente para se colocar como o candidato que continuaria o atual governo, sem a benção de Ratinho. E se posicionou estrategicamente durante toda a campanha.

Não disparou um disparo contra o adversário. Usou a “estrada do Tayayá” no últumo debate para conseguir vencer no 1º turno. No paiol, restou muita munição.

Agora Moro terá que mostrar aptidão em governar e deixar de lado, de uma vez por todas, a sombra da toga que forjou a sua fama de justiceiro da Lava Jato, de algoz do Lula e que o guiou nos discursos de combate à corrupção.

De pedra à vidraça

A partir de agora, a prática terá que ser muito diferente do discurso para que os resultados como governante não sejam desastrosos. De 5 de janeiro de 2027 em diante, Moro deixa de ser pedra e vira vidraça — como chefe do Executivo.

A Ratinho Junior resta a esperança de, quem sabe, disputar uma eventual eleição suplementar ao Senado. Os quase 3 milhões de votos de Deltan estão sob júdice e a validade deles depende do plenário do TSE — que vai avaliar o registro de candidatura.

O grupo político de Ratinho precisa fazer uma autoreflexão. Cristina Graeml, que tanto buscou uma candidatura ao Senado e encontrou no partido do governador, terminou o pleito atrás de Dr. Rosinha. Quem diria.

Alexandre Curi, que abriu mão de disputar o governo em prol da unidade política do grupo político liderado por Ratinho, virou refém de uma barca sem comando. Que por vezes remava para trás. Sandro Alex não ajudou.

E o cenário polarizado com debate estridente contra o Supremo Tribunal Federal forçou Alexandre Curi a adotar um arquétipo que nunca foi dele.

O novo nome do PSD

A força política do PSD, ou o que restou dela, passará muito em breve para outras mãos: Eduardo Pimentel, prefeito de Curitiba. Terá de abrigar combatentes que saem da eleição cambaleantes e desnorteados.

Terá de escolher de tentar reergeuer o partido ou acenar para o futuro governador Sergio Moro evitando um embate em 2028. O primeiro movimento veio minutos depois do veredicto das urnas: parabenizou o ex-juiz, disse que está aberto ao diálogo e desejou sucesso.

Seria uma tentativa de reconstruir a aliança do PSD com o PL — implodida por Ratinho? Para Eduardo Pimentel, o cenário de governar pelos próximos dois anos, de olho na reeleição, tendo o governador do Estado como adversário é péssimo. Quem não lembra da relação entre Gustavo Fruet e Beto Richa?

O fim da eleição é um momento ideal para pensar em reconstruir pontes e alianças. Há interlocutores para abrir o diálogo citado pelo prefeito. Resta saber se Moro e seu time, agora vitorioso, vai querer tratar disso agora.